A Joia [A Cidade Solitária #1], de Amy Ewing

| 3 de fevereiro de 2017 | 6 Comentários

Capa do Livro A Joia

Depois de alguns anos adiando a leitura desse livro que me prometia tanto, eis que finalmente tomei vergonha na cara e li. E gostei. Mas não muito. Só que bastante. Confuso? Deixe-me explicar.

Violet Lasting poderia ser considerada normal. Nascida no círculo mais pobre da Cidade Solitária, uma construção imensa localizada no meio do oceano, teria apenas a vida dura e penosa reservada para os moradores do Pântano. Só que Violet não é normal.

Todas as meninas do Pântano são submetidas a testes assim que menstruam pela primeira vez. E, invariavelmente, como todo bom protagonista, Violet descobre que é especial, nascida para ser uma substituta e servir como tal: uma incubadora humana para a realeza da Joia, o círculo mais rico e privilegiado da Cidade. Ao contrário das mulheres reais, nossa heroica personagem principal é fértil. Além disso, é dotada de dons chamados Presságios, capazes de manipular objetos e a vida de acordo com sua vontade. Portanto Violet, como toda substituta, é separada de sua família e treinada por anos a fio para cumprir seu destino.

Agora que completou dezesseis anos, é chegada a hora. Mas será que Violet é forte o bastante para sobreviver ao mundo de intrigas e mentiras que rodeiam as famílias reais da Joia? Será que um grande amor não pode colocar tudo a perder?

Antes de mais nada, deixemos uma coisa bem clara aqui: Violet odeia a Joia e tudo que o lugar representa: a perda de sua liberdade e o final definitivo do convívio com a família. Mas, logo no início, descobrimos que ela não é a clássica personagem amarga odeio-tudo-e-todos-e-nunca-vou-gostar-daqui. E isso me agradou muito, justamente por ela fugir dos padrões e por se comportar e agir como uma pessoa extremamente plausível, mesmo numa situação absurda como a proposta pelo livro. Assim, onde eu esperava uma menina forte e clássica protagonista, me deparei com tudo isso e seu grande diferencial: Violet é verdadeira, tem falhas e, como todo ser humano, pode ser corrompido até que haja o devido choque de realidade.

De cara, nas primeiras páginas do livro já temos uma prova da personalidade da nossa protagonista: na interação com Raven, sua melhor amiga e no Leilão, o grande “mercado” de substitutas. Violet é coerente do início ao fim. E Ewing jamais se esquece de seus personagens secundários, lapidando-os com uma maestria inesperada de uma autora estreante. Conhecemos opostos igualmente bem descritos: de um lado a Duquesa, dotada de uma crueldade e objetividade arrepiantes e do outro a doce Annabelle, uma criada que amolece nosso coração.

O universo do livro é denso, complexo e muito bem elaborado. Talvez não seja inédito (afinal, oprimidos [no caso, oprimidas] versus opressores [no caso, opressoras] não é novidade alguma) mas sem dúvida tem uma boa dose de criatividade.

Como puderam perceber, uma das peculiaridades de A Joia foi, impressionantemente, o quanto a personagem principal foi capaz de sustentar a estória sozinha, sem o artifício do romance, mantendo a trama interessante e instigante o suficiente para que eu pensasse, no momento em que o romance aparece, se este é realmente necessário. Porque é fato para mim que dificilmente me interesso por um livro sem esse fator romântico (a não ser que eu esteja pronta para isso) e foi incrível constatar que estava adorando-o mesmo assim.

Mas por que, então, uma nota 4 se o livro é tão bom assim? Tivemos dois probleminhas que comprometeram a leitura. A escrita e o romance. No que Ewing caprichou em detalhes na trama, falhou em descrição (de roupas, ambientes, situações) ao longo do livro. Sua escrita é pouco elaborada, bem simples e bem preto no branco. Não teria problema algum com isso se eu não achasse que um livro com uma história complexa mereceria uma escrita igualmente bem trabalhada. Mas o leitor não encontra isso: o livro é baseado frases curtas, descrições escassas e que não nos situam totalmente no universo mágico que foi esse criado por Ewing. E outro fator foi o romance, claro. Ele, que não aparece até mais da metade do livro, de repente é atirado na cara do leitor e espera-se que ele engula. O termo “grande amor” que utilizei lá em cima é, na melhor das hipóteses, risível. Não convence, é fraco (as parcas descrições colaboram para tal) e, acredite: não é de suspirar. Está mais para bocejar mesmo. E por esses fatores tive de baixar a nota que daria para o livro.

Assim, mesmo com seus altos e baixos, A Joia foi uma leitura muito satisfatória. O enredo é ótimo e os personagens estão sempre ali, sem nunca serem esquecidos. Tem uma trama forte e um final destruidor, se me permitem, que nos deixa pelo menos curiosos para o próximo volume. Um livro de estreia incrível e que nos promete muita coisa boa vinda de Amy Ewing: só precisa de um pouco de prática.

The following two tabs change content below.

Ana Maluf

Não existe maneira de começar uma minibiografia sobre mim sem ressaltar o óbvio: amo ler. E estou aqui pois além disso, amo escrever sobre o que leio. Desde romances de época a fantasias e distopia ou livros de terror, a leitura tem sido parte de mim desde meus nove anos. E agora, com meus dezesseis, vivi muito mais do que isso através de páginas e de palavras. Espero que gostem!

Últimas Postagens de Ana Maluf (Ver todas as publicações)

Quer receber nossas atualizações por e-mail?

Nós podemos ajudá-lo a escolher sua próxima leitura.

Tags:

Categoria: Fantasia, Ficção Adolescente, Literatura Juvenil

Comentários (6)

Trackback URL | Comments RSS Feed

  1. Prof. Antônio disse:

    Gostei de sua iniciativa. Seu estilo ficou um tanto barroco, aqui e ali com deliciosos paradoxos,e análise bem determinada. Continue, menina!
    Beijos

  2. Layla Magalhães disse:

    Uau! Adorei a resenha! Você jogou com a tentação de leitora compulsiva (aqui, presente!) e fez com que a vontade de ler esse livro surgisse e quadruplicasse! Amei.
    Estou ansiosa pra ler mais resenhas suas, Ana!
    Beijos da sua fã.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *