A Rainha da Neve, de Michael Cunningham

| 12 de maio de 2016 | 2 Comentários

 

Comprei esse livro pois nunca tinha ouvido falar desse autor, até saber que ele escreveu o grande drama “     As horas”, que inclusive virou filme protagonizado por ninguém menos que Meryl Streep e Nicole Kidman; então posso dizer que eu esperava sim, grandes coisas desse livro, e quer saber? O que eu esperava ficou para trás já no primeiro capítulo.

Esse autor é como um grande explorador da natureza humana que gira o globo com os olhos fechados e despretensiosamente coloca seu dedo sobre algum lugar do mapa, e quando chega simplesmente segue a primeira pessoa que passa, se tornando onisciente unicamente para relatar as sensações e complexidade que explodem dentro desse personagem e aqueles que o cercam.

O autor sutilmente nos introduz na atmosfera de vida de dois irmãos diametralmente opostos em quase tudo que é possível. Enquanto o irmão mais velho Barret vivencia o fim de um relacionamento e a estranha aparição de uma luz misteriosa que mexe com suas expectativas, o seu irmãocapa do Livro A rainha da neve Tyler tenta em vão escrever a música perfeita para sua noiva moribunda e largar seu vício em drogas.

Alguns outros personagens têm suas vidas devassadas por serem parte da narrativa desses irmãos, inclusive Beth, a noiva de Tyler, e sua chefe e amiga lyz, que se encontra num relacionamento disfuncional.

Sua narrativa parece à primeira vista cheia de floreios e com propósito de nos deixar impressionados com suas metáforas ricas, mas isso é só a superfície de quem aprendeu que a natureza humana jamais poderá ser descrita com um simples adjetivo. Através das suas descrições começamos a enxergar pequenos lapsos da vida desses irmãos e o porquê de ser como são.

Michael Cunningham nos permite ver com um olhar indiscreto a vida desses personagens que se desenrolam entre o que eles poderiam ter sido e o que se tornaram. Inexplicavelmente isso se volta contra nós, pois nos tornamos observadores da vida pura e simples, onde não existe certo e errado, mas somente os fatos imutáveis que cercam esses irmãos, o que pode gerar um certo desconforto, tamanha a crueza de sua narrativa.

Não espere a trindade óbvia das histórias: começo, meio e fim. Como já falei, é somente a descrição crua de um lapso de tempo e lugar aberto pelo autor. Mas acredite em mim, você continuará lá mesmo depois de terminar, ou ele continuará em você, pois é inevitável não refletir sobre todos os erros e acertos que nós mesmos produzimos ao longo do caminho.

Essa história é comum quanto aos fatos: termino de namoro, um alvo a alcançar, a superação de uma enfermidade, o relacionamento entre irmãos, o amor entre amigos e amantes.

Essa história é profunda quanto a narrativa: é exploratória, é tão lírica quanto crua, é despretensiosa e não tem medo de te deixar chateado ou até mesmo frustrado com a falta de maniqueísmo e artificialidade que o autor insiste em afastar.

Nota: 4,0

Lais Guedes.

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Lais Guedes

Olá, Sou lais, nascida e criada com livros desde que me entendo por gente. Passei boa parte da minha infância lendo os livros que pertenciam a minha mãe e meus tios quando eram criança (coleção vaga lume, lembra?) e desde então meu amor por esta arte só cresce e nunca se esgota! Fique a vontade para comentar suas preferências e trocar uma ideia, meu perfil está ai.

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Categoria: Michael Cunningham, Romance psicológico

Comentários (2)

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  1. Leonardo Pinto disse:

    Gostei muito da análise, aguardo as próximas, parabéns!

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