As Boas Mulheres da China, de Xinran

| 27 de janeiro de 2017 | 0 Comentários

Capa do livro As boas mulheres da China

A cultura oriental é muito peculiar. As cores, a língua, a comida, as religiões, as paisagens e as vestimentas são ricas de significados e beleza. A China, particularmente, destaca-se entre minhas preferências. O país me encanta de tal forma que não tenho outra saída a não ser buscar o máximo de conhecimento possível sobre ele, o maior da Ásia Oriental, com quase um quinto da população da Terra (mais de 1,38 bilhões de habitantes, segundo o Country Meters). Cabe ressaltar o comando da unidade federativa pelo Partido Comunista desde 1949, tornando-o bem diferente de nossa realidade, por exemplo. Unindo dois prazeres: China e literatura, me deparei com o livro “As Boas Mulheres da China”.

A obra retrata a realidade sofrida das mulheres chinesas desencadeada pela Revolução Cultural e pelos costumes e tradições presentes no país (algumas mulheres sofrem até hoje). A jornalista Xue Xinran concede espaço em seu programa de rádio “Palavras na Brisa Noturna” para dar voz a essas mulheres. Ela viaja, se relaciona, troca cartas, telefonemas e estabelece um relacionamento profundo, onde as mulheres se abrem revelando seus segredos mais íntimos, deixando transparecer suas feridas mais internas. Essa relação de confiança ocorre naturalmente, fazendo com que nos deparemos com marcas profundas da experiência humana cruel, sobretudo com a mulher naquele país, onde a tarefa de estabelecer e conquistar o seu espaço não é tarefa fácil. São casos de violência doméstica, estupro, homossexualidade, lembranças da Revolução Cultural, casamentos forçados e abusos relatados de maneira íntima e crua, os quais chamaram a atenção da jornalista pela gravidade da situação das mulheres chinesas em várias épocas.

Quando experiências reais são investigadas e contadas como forma deste livro, temos um gênero conhecido como jornalismo literário, que une o texto jornalístico com elementos da literatura, objetivando produzir reportagens profundas, amplas e com riqueza de detalhes, caracterizando-se por uma postura mais humanizada. Ele se difere do jornalismo tradicional ao abrir espaço para as entrelinhas das matérias que, geralmente, ficam ocultas em reportagens do dia a dia de diversos jornais. Além disso, é notável a apresentação do ponto de vista pessoal do autor.

Cada capítulo do livro é um caso real de uma chinesa diferente. Elas são muito distintas, mas todas têm em comum os sinais de um grande sofrimento. Todo relato é carregado de emoção por ser real. O fato de maior destaque no livro é o envolvimento e o sentimento de amizade que a jornalista usa com suas fontes. Xinran teve que deixar seu país e ir para a Inglaterra para publicar seu livro e continuar a dar voz para as mulheres (a classe mais menosprezada) da China.

Um livro que nos faz refletir e nos emociona. Conseguimos ter uma dimensão do mundo em que vivemos, de como ele é tão diverso, amplo, cheio de costumes e diversidades. O trabalho de Xinran, que foi corajoso, nos mostra a situação da mulher na China nos dias de hoje. Podemos lembrar dos conflitos humanos em busca de poder e soberania, responsável pelos resquícios da condição feminina ainda sem voz. Também é possível compreender que o socialismo, em sua forma extrema, não é uma utopia, já que as diferenças, bem grandes, ainda são percebidas. Sem uma “Lei Maria da Penha”, pelo menos, as mulheres continuam subjugadas e submissas. Esse é o meu livro favorito da vida, até o momento. Nota 5/5.

Relaciono o trecho de duas músicas com a leitura:

Ai! Que saudade da Amélia – Ataulfo Alves

“Amélia não tinha a menor vaidade

Amélia é que era mulher de verdade”

 

O Que É Que Eu Dou? – Dorival Caymmi e Antônio Almeida

“Ela está sempre zangada,

Sempre de cara amarrada.

Será que ela quer pancada?!

É só o que lhe falta dar!

Ela quer apanhar!”

 

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Sou jornalista e, atualmente, mestrando em gestão e avaliação da educação pública. Trabalho com avaliação educacional. Encontro nos livros a dose certa de aventura e fantasia para tornar a vida mais prazerosa. Gosto muito de livros clássicos, de ficção científica, de não ficção e de realismo fantástico. Acredito que a literatura, como arte da palavra, tem o poder de despertar em todos nós uma interpretação daquilo que foi imaginado pelo autor, com base em nossa experiência de mundo. Debater sobre essa relação individual com uma obra literária é fundamental para ampliarmos nossas concepções.

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Categoria: +Autor, Entrevistas

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