Aula, de Roland Barthes

| 9 de julho de 2017 | 3 Comentários

Começo essa resenha com um trecho do livro que tá martelando na minha cabeça há dias, desde que o li: “Se, por não sei que excesso do socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária que devia ser salva.”

Deixo claro de Capa do livro Aulainício que esse não é um livro de história, se prepara que por uma hora e cinquenta você vai receber uma Aula.

“Mas por que eu gastaria meu precioso pouco tempo de leitura que tenho no dia pra ler um texto t-e-ó-r-i-c-o?” Caros leitores viciados e prezadas leitoras devoradoras de livros, primeiro que isso aqui não é colégio e vocês não são obrigados a nada. A vida segue no modo “easy” até você tomar a pílula vermelha. Qualquer coisa sempre tem a famosa opção de ignorar esse livro e ligar a tv que tá passando a novela das seis agora.

Caso ainda esteja aqui, te apresento a pílula vermelha. Esse livro se trata do texto da aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária lido por Roland Barthes no Colégio de França em 1977 (fim da cópia descarada da contracapa). Nele, apesar de pequeno – falei anteriormente das uma hora e cinquenta de aula porque é isso mesmo, o ensaio e o posfácio têm no total menos de cem páginas de letras grandes -, Barthes expôs alguns de seus princípios mais intensos e radicais (não é por acaso que tanta gente o tem como livro de cabeceira).

Entrando no assunto conteúdo real agora: Barthes expõe e desconstrói alguns fatores da linguagem, principalmente a noção de autoridade apenas no discurso de porta-vozes do Sistema. Ou seja, enquanto você escritor é mestre das palavras e as escolhe cuidadosamente (ou não), é também seu servo, já que elas ditam o modo como você diz, o que você diz e o que te motivou a dizer. Isso quer dizer que você, Dr. Cal Lightman das palavras, ao analisar um discurso qualquer que seja consegue ir muito além da superfície do que é dito.

Como dito, além de expôr a língua fascista (“o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer” vide parágrafo anterior), Barthes diz que a única forma de trapacear os discursos de poder é a literatura. E é isso que ele faz durante todo o seu texto, ao utilizar o que ele chama de deslocamentos: ele brinca com as palavras e seus significados, usa termos científicos em contextos informais e desloca a definição de certas palavras tornando o seu discurso inesperado.

Claro que 400 palavras não são suficientes para resumir nem metade do conteúdo de Aula, e Barthes vai muito além do que aqui foi dito. Quanto a mim, pretendo ler esse livro mais algumas vezes, além de outras obras teóricas do semiólogo.

Nota: 5/5

Resenha feita por Almir Leandro

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Almir Leandro

Almir Leandro - 19 anos. Como não ser clichê falando sobre o quanto eu curto os livros? É, não tem como, então fica aí a imagem de amante dos livros por motivos de sinceramente como que não gosta de ler?! Enfim, escrevo resenhas, contos, crônicas, bilhetes, post-its, lista de supermercado e o que der na telha. Dilema atual diante das poucas 24 horas do dia: será que eu leio um livro ou ~compro uma goiaba~ assisto mais uma série?

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Categoria: Acadêmico, Educação

Comentários (3)

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  1. Karen disse:

    Eu li esse livro e o que mais me interessou foi a forma que Barthes aborda a língua e a importância da linguagem. “A língua é facista, não porque ela te impede de fazer algo, mas porque ela te obriga a dizer” essa frase -ou algo assim- foi o que mais me marcou. A língua como símbolo e instrumento de poder. A literatura como forma de “salvar” ou condenar o homem. Muito bacana!

  2. Amanda disse:

    Nunca achei que um livro teórico poderia ser tão interessante. Você é realmente bom nisso!

    • Almir Leandro disse:

      Eles só têm uma linguagem mais técnica, pedem mais de uma leitura e tal, mas é show quando você pega a ideia. Bom que você gostou!

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