Cadeia: relatos sobre mulheres, de Débora Diniz

| 18 de janeiro de 2017 | 0 Comentários

Comecei a leitura desse livro com curiosidade para conhecer um pouquinho de como funciona o cotidiano de um presídio. Terminei-a em lágrimas, e essas se devem à profundidade do drama e das mazelas humanas narradas pela cientista social Débora Diniz, responsável por trazer ao público não só essa, mas muitas outras denúncias sociais através de livros e de documentários.

A obra é organizada em vários capítulos curtos, cada um dedicado a uma história, cuja protagonista recebe um nome ficitício, pois todas as situações expostas não são, infelizmente, “privilégio” de somente uma detenta, e sim um mesmo sofrimento compartilhado por inúmeras mulheres. Tal divisão em partes enxutas permite que a leitura seja feita em ordem aleatória, sem necessariamente seguir a ordem do livro.

Temas como tráfico de drogas, vícios, doenças sexualmente transmissíveis, transtornos psicológicos, e,  principalmente, abandono são trazidos à tona e transformam-se em rotina num local onde a complexidade humana é reduzida aos ditames rígidos da lei.

Sua linguagem inicialmente provoca estranhamento no leitor, isso porque Diniz opta por conduzir os relatos usando o vocabulário do meio em que eles foram registrados, ou seja, o texto é construído pela presença de gírias próprias do ambiente prisional. Assim, transcorrem-se alguns capítulos até que termos como “catatau”, “laranjinha” e muitos outros sejam assimilados com naturalidade pelo leitor.

No entanto, o principal ponto a ser ressaltado acerca de “Cadeia: relatos sobre mulheres” supera o sofrimento individual de cada narrativa – o que já seria suficiente para avaliar positivamente a obra – para despertar nas mentes interlocutoras algumas reflexões: em tempo de massacres em presídios por todo o país, não seria hora de reavaliar a eficácia de se confinar criminosos de diferentes níveis (como um ladrão autor de um único assalto desarmado e um assassino) em um mesmo local, onde o conhecimento sobre práticas violentas só aumenta? E, para eficientizar o combate ao crime, os esforço iniciais não deveriam ser realizados com crianças em situação de marginalização, para impedir que suas juventudes marquem a entrada para o crime?

Minhas impressões sobre a obra:

Aprecio muito a leitura de relatos sobre situações da realidade nacional. Mas esse foi um dos que mais me atingiu, pois chama a atenção para a vida de mulheres que são simplesmente ignoradas pelo restante da sociedade, inclusive pelas autoridades, responsáveis por julgamentos equivocados em não raras vezes. Outro item que despertou minha atenção foi a temática da liberdade, algo a que todos estamos acostumados e cuja ausência no âmbito físico, pode levar ao aprisionamento psicológico, desfecho também comum entre as personagens. Por fim, a curta extensão do livro reforça minha avaliação positiva e recomendação de leitura.

 

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Rafaela Zimkovicz

Muito prazer, caro leitor. Me chamo Rafaela e a expressão "viciada em livros" poderia servir como meu sobrenome, já que descobri a magia dos livros aos 8 anos, e desde então, nunca parei de devorá-los. Espero conseguir expor-lhes ao menos um porcento da grandiosidade das obras literárias através das resenhas. Idade: 15 anos.

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Categoria: +Autor, Biografia

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