Erámos Seis, de Maria José Dupré

| 31 de maio de 2014 | 4 Comentários

Capa Eramos SeisO livro inicia com uma velha senhora passando na avenida Angélica, em São Paulo, onde residiu por muitos anos. Ao pensar em sua casa a velha senhora não consegue resistir e acaba indo olhar a janela da casa onde viveu a infância dos filhos e junto ao marido. Ao ver cada canto da casa em que fora muito feliz e onde sofreu muito a autora começa a nos narrar fatos da sua vida e de sua história na casa da avenida Angélica.

Ela começa a nos contar sobre a infância dos filhos que as vezes brigavam pela cor dos cravos que haviam no jardim e como filho Carlos caiu na escada e ganhou um galo na cabeça. Como estava preocupada pela vinda das duas irmãs a sua casa, que pensava ela causaria atrito com o marido.

Aos poucos vemos as crianças crescerem sob os cuidados de Dona Lola e a opressão de seu marido Julio, que como era normal a época era extremamente grosso, machista e costumava descontar suas frustrações nos filhos. Vemos se formar a personalidade de cada um, Carlos que gostava muito de estudar e desejava ser médico era o mais apegado a mãe, Alfredo, que se via maltratado pelo pai tinha um comportamento estranho e sempre andava com moleques de rua, Julinho que vendia tudo o que podia e sempre guardava dinheiro e Isabel, a filha mimada pelo pai que era muito vaidosa.

Na época Dona Lola e seu marido Julio lutavam para pagar uma prestação da casa todo final de ano por dez anos. Doenças, brigas e festas, como o casamento de Olga, a irmã mais nova e o enterro da mãe de Dona Lola, marcavam os dias da família.

Pode-se dizer que o divisor da águas na história da família é a morte do marido de dona Lola, por causa de uma úlcera no estômago, que vai evoluindo e acaba o levando em treze dias. A partir dai a família começa a lutar acirradamente por sua sobrevivência, a irmã de Dona Lola, Clotilde, passa então a morar com eles e ajudar a Lola e aos filhos com a fabricação de doces, para a venda as vizinhas e na confecção de peças de trico. Os filhos de Dona Lola  veem-se obrigados a parar de estudar e a trabalhar para ajudar em casa, menos Isabel que consegue concluir o curso de professora e datilógrafa. Alfredo é expulso da oficina em que trabalhava por roubar e Júlio é promovido e tem de se mudar para o Rio de Janeiro.

Essa fase é marcada por grandes sofrimentos e uma vida difícil e com muitas preocupações.

Na terceira fase os filhos já estão adultos, a casa já está paga e Dona Lola, já não os compreende. Alfredo se torna comunista e tem que fugir do país para não ser preso, Carlos começa a cantar em rádios, Isabel sofre com um namoro com um senhor casado, Júlio prospera no Rio de Janeiro e noiva com a filha de seu patrão. Carlos e Alfredo brigam muito nessa época pelas diferenças ideológicas e de personalidade de um e outro e Alfredo, antes da briga que culmina na fuga de Alfredo.

Logo em seguida Isabel se casa contra a vontade da mãe que corta laços com ela, Alfredo continua morando longe e Julio aparece e convence a mãe a vender a casa e dar o dinheiro a ele para que ele possa participar de um negócio e depois vai lhe pagando aos poucos. Carlos adoece de úlcera e morre.

E no final vemos Dona Lola já com idade, sozinha em sua casa pequena e longe de todos os filhos traçando o destino de cada um.

Um quase clássico da literatura brasileira, já teve a sua melhor fase ao inspirar duas telenovelas, com o mesmo nome. Hoje “Eramos Seis” é lembrado como um relato do cotidiano das famílias de São Paulo na década de vinte. Particularmente eu sinto que pude ver bastante da história do Brasil nessa época pelas frestas dos relatos, de Dona Lola e a clareza com que a autora põe cada coisa em seu lugar, um pouco deslocado hoje é encantadora. Vale muito a pena lê-lo para ganhar um pouco de cultura fácil.

Nota: 5/5

Maria José Dupré: É autora de vários clássicos da literatura infanto-juvenil, mas foi o romance Éramos Seis, obra premiada pela Academia Brasileira de Letras, que a lançou efetivamente no mercado. Prefaciada por Monteiro Lobato, Éramos Seis mereceu o seguinte comentário do autor mais significativo da história da literatura infanto-juvenil brasileira: “Tudo fica vida, só vida, em seu extraordinário romance”. O livro foi traduzido para o espanhol, francês e sueco e transformado em filme na Argentina, e em quatro ocasiões, na forma de telenovela no Brasil.

Outros Livros: O Romance de Teresa Bernard (1941), Éramos seis, Gina, A Casa de Ódio, Os Rodrigues, Dona Lola (continuação de Éramos seis, Luz e Sombra, Vila Soledade, Angélica, Menina Isabel, Os Caminhos, A Ilha Perdida, O Cachorrinho Samba, O Cachorrinho Samba na Fazenda, O Cachorrinho Samba na Floresta, A Mina de Ouro e A Montanha Encantada.

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Audrei Bittencourt

Sou uma pessoa diferente, temperamental, com gênio muito forte, divertida e inteligente, gentil e amiga. Tenho paixão por livros desde a primeira série do fundamental e leio pelo menos um por semana. Meus estilos preferidos são romance, terror, mistério e suspense. Autora de "Normalidade" da coleção " A Ceifeira". Técnica Agrícola e Agropecuária, estudante de Ciência e Tecnologia dos Alimentos da UERGS, escritora nos blogs, Resenhas De Livros vinculado ao site Ler Livros Online e De Olho Em São Marcos e autora de “Normalidade” da série A Ceifeira.

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Categoria: Drama, Educação, Literatura Nacional

Comentários (4)

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  1. Marcelo Barros disse:

    Não sei se era normal na época ser grosso e machista e descontar suas frustrações nos filhos. E a autora desta resenha também não sabe. Me parece muito errado tirar essas conclusões baseada num livro de ficção escrito por uma autora que ao que tudo indica tinhas sérios problemas com os homens. ao que parece, ela os odiava, pois em todos os seus livros eles são mostrados da pior maneira possível.

    • Luana Lira disse:

      Olá, Marcelo! Infelizmente esse tipo de atitude era comum naquela época e todos os livros têm uma crítica em relação a algum fato da sociedade. “Éramos Seis” mostra a realidade da maioria dos homens daquela época, retratados pelo ponto de vista de uma personagem das classes mais desfavorecidas, as mulheres.
      Continue acompanhando as nossas resenhas 😀

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