Jantar Secreto, de Raphael Montes

| 7 de fevereiro de 2017 | 0 Comentários

Capa do Livro Jantar Secreto

Imagine só uma coisa interessante: que existe um livro que poderia ser descrito com cada uma das palavras a seguir: inovador, nojento, impensável, sensacional, de revirar até o mais forte dos estômagos. Estranho, não? Mas eis que eu vos apresento Jantar Secreto, do já consagrado Raphael Montes, autor de Suicidas e de Dias Perfeitos. Essa obra é dos extremos: antiético, mordaz e perturbador. Conhecemos os mais odiosos seres humanos – e descobrimos que podemos ser exatamente como eles.

No volume, acompanhamos a estória de quatro amigos de infância – Dante, Leitão, Hugo e Miguel -, vindos de uma cidade pequena, prontos para tentarem a sorte no Rio de Janeiro Fevereiro e Março. Algo que acontece todos os dias, certo? Mas surge um problema (sempre surge, não é? Não estaríamos lendo isso se não surgisse). Depois de anos na Cidade Maravilhosa, após os términos das faculdades, estão todos desempregados ou duros. E neste momento chega a péssima constatação: os amigos não conseguem mais pagar o aluguel do apartamento. E aí vem a ideia: por que não oferecer jantares secretos de luxo, a nova onda da elite carioca, para quitar a dívida?

Seria ótimo se não fosse péssimo: o amigo lelé da cuca resolve adicionar um pequeno detalhe à chique refeição: a carne servida será humana. E neste ponto, meus caros, começa o livro realmente, repleto de morte, descrições traumatizantes e sua futura recusa em comer carne de boi por algumas semanas.

O livro se aproxima do perfeito. Acredito que a única inconsistência seja a facilidade com que os rapazes aceitaram organizar algo tão louco quanto o jantar humano. O amigo doido falou, um pouco de resistência e pronto: onde conseguimos um corpo mesmo? Faltou o elemento plausível – mesmo um ser humano com tendências canibais adormecidas não faria algo tão rapidamente assim, ainda mais se ele pudesse ser preso.

Agora com os pontos positivos. Não posso fingir que não amei esse livro.

É uma proposta, no mínimo, ousada. No máximo, de arrepiar e de dar vontade de vomitar (como aconteceu comigo várias vezes durante a leitura). Jantar Secreto nos faz perder totalmente o ímpeto de continuar lendo ao mesmo tempo em que queremos mais e mais. É horrível. E é incrível.

De cara, gostamos de Dante, que é quem narra esta tenebrosa estória. E sentimos algo próximo de pena ao constatar que ele vai se meter em uma poça de bosta da qual nunca mais sairá. Mas perdemos esse sentimento ao ver que ele é tão horrível quanto nos recusávamos a enxergar. Só que a compaixão retorna quando tudo parece dar errado e quando secretamente estamos torcendo pelo personagem.

É extremamente esquisito o jeito que o autor nos faz sentir em relação a tudo: sejam os amigos, o ambiente e cada palavrinha escrita nas páginas; como se devêssemos amá-los e odiá-los, ao mesmo tempo e do jeito mais bárbaro possível. Deparamos-nos com situações inimagináveis, ficamos tristes, agoniados e perturbados. Este não é mesmo um livro leve, que te deixará feliz e satisfeito com o mundo. Ele te arrasta para a compreensão de quem você é, do que você é e se fins realmente justificam os meios.

Um ponto marcante é que nenhum personagem é secundário. Ninguém se perde ou é repentinamente transformado. Vemos a mudança ao longo de sua asquerosa trajetória, como a índole perversa e cruel sempre esteve ali. Estão todos ligados pelos mais obscuros segredos, e a cada momento é uma surpresa, uma revelação que considerávamos impossível. Acompanhamos os amigos se perderem em si mesmos e em suas ambições. E percebemos que não fazemos ideia de a que ponto o ser humano pode realmente chegar.

É uma história fictícia, sim. Mas ao mesmo tempo é tão real que nos faz olhar por cima do ombro quando estamos na rua, nos traz aquela inquietação do cômodo escuro da casa. Nos marca com infelicidade e agonia.

Então por que você leria esse livro?

Porque ele é majestoso. Escrito à perfeição, cada palavra é pensada e calculada para termos as reações que o autor quer. Nós damos risadas malvadas. Vamos pouco a pouco nos tornando cúmplices, tentando entender, entrando na mente de Dante e permanecendo na mesma situação que ele.

O livro físico só é mais uma incrível surpresa. A capa é perfeita e a lombada é colorida de vermelho. Se fui com enormes expectativas para a leitura, cada uma delas foi atendida; da pior maneira possível.

Jantar Secreto é absolutamente arrebatador, do início ao fim. É brilhante de uma maneira quase cruel e, se em algum momento tive dúvidas quanto a nota que daria a este livro, o final me deu a resposta. Nota cinco. Um enorme e descarado cinco.

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Ana Maluf

Não existe maneira de começar uma minibiografia sobre mim sem ressaltar o óbvio: amo ler. E estou aqui pois além disso, amo escrever sobre o que leio. Desde romances de época a fantasias e distopia ou livros de terror, a leitura tem sido parte de mim desde meus nove anos. E agora, com meus dezesseis, vivi muito mais do que isso através de páginas e de palavras. Espero que gostem!

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Tags:

Categoria: Ficção, Horror, Raphael Montes, Suspense, Terror

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