Noites brancas, de Fiódor Dostoiévski

| 31 de janeiro de 2017 | 0 Comentários

Capa do livro Noites brancas

Durante o fenômeno conhecido como “noites brancas” em São Petersburgo, na Rússia, quando o solstício de verão torna o dia longo e o céu não atinge o breu absoluto, a figura central da obra, chamada de Sonhador, conhece Nástienka. Os dois marcam encontros em quatro noites consecutivas para contar suas histórias e conversar sobre a vida, problemas e angústias.

Inevitavelmente, o Sonhador se apaixona pela moça, embora desde o momento em que se conheceram ela o pedira para que não deixasse isso acontecer, já que ela espera por outro homem. Ela sente-se abandonada e o Sonhador a consola. A personagem não é livre, vive com a avó extremamente controladora e somente nos momentos secretos com o Sonhador é que pode experimentar a liberdade.

O protagonista tem dificuldades nas relações sociais. Seus amigos não são duradouros, já que quando se encontram com mais frequência, ele acaba por botar tudo a perder passando a imagem de louco. Com as mulheres a relação é ainda mais complicada, visto que por receio, polidez ou insegurança, o Sonhador sempre hesitou muito para que a aproximação acontecesse. Nástienka foi a sua primeira investida.

Por não ter traquejo social, a cidade, descrita com riqueza de detalhes como uma personagem também da história, e o seu quarto, fechado, antigo e manchado, são sua principal forma de contato com o mundo. Este último onde, por meio de fluxo de consciência, ele divaga, tem momentos de neurose, como ao perceber que todos estão indo embora da cidade, e filosofa questões existenciais. O quarto do Sonhador, na minha compreensão, é um local simbólico, com a formação de ideias livres, sem filtro. Lá o Sonhador pode enxergar a si mesmo sem a influência do outro.

Tive a impressão de que tudo o que aconteceu no romance foi de fato um sonho, e não realidade. O protagonista, que idealizava a aproximação com uma mulher por isso nunca ter acontecido, encontrou no sonho a realização de seu desejo. Contudo, essa satisfação não é perene, já que a mulher espera por outro. A não concretização do seu desejo estabelece uma ligação com a realidade, onde o Sonhador é sozinho e apenas quer viver o amor, mas não permite que isso aconteça.

Um livro profundo, apesar de suas 96 páginas de leitura rápida. Percebemos o Romantismo de uma maneira sútil e com linguagem extremamente acessível, mesmo em um livro escrito em 1848. O narrador, em primeira pessoa, nos transporta para a história e nos deixa à vontade com nossas próprias questões, ao mostrar que não existe vida perfeita e todos temos problemas e/ou dificuldades de se comunicar/relacionar com o outro (vi isso nos personagens). A leitura pode ser encarada como ponto de reflexão ou como uma boa história, apenas. Nota 4/5.

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Sou jornalista e, atualmente, mestrando em gestão e avaliação da educação pública. Trabalho com avaliação educacional. Encontro nos livros a dose certa de aventura e fantasia para tornar a vida mais prazerosa. Gosto muito de livros clássicos, de ficção científica, de não ficção e de realismo fantástico. Acredito que a literatura, como arte da palavra, tem o poder de despertar em todos nós uma interpretação daquilo que foi imaginado pelo autor, com base em nossa experiência de mundo. Debater sobre essa relação individual com uma obra literária é fundamental para ampliarmos nossas concepções.

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Categoria: +Autor, Romance

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