O Demonologista, de Andrew Pyper

| 28 de abril de 2017 | 0 Comentários

Bom dia, gente 🙂

Sempre que lemos um livro de terror, a religiosidade – ou o que sobra dela – é posto à prova de alguma maneira. Há sempre al

“A maior astúcia do Diabo é nos convencer de que ele não existe”, escreveu o poeta francês Charles Baudelaire. Já a grande astúcia de Andrew Pyper, autor de O DEMONOLOGISTA, é fazer até o mais cético dos leitores duvidar de suas certezas. E, se possível, evitar caminhos mal-iluminados.
O personagem que dá título ao best-seller internacional é David Ullman, renomado professor da Universidade de Columbia, especializado na figura literária do Diabo – principalmente na obra-prima de John Milton, Paraíso Perdido. Para David, o Anjo Caído é apenas um ser mitológico.
Ao aceitar um convite para testemunhar um suposto fenômeno sobrenatural em Veneza, David começa a ter motivos pessoais para mudar de opinião. O que seria apenas uma boa desculpa para tirar férias na Itália com sua filha de 12 anos se transforma em uma jornada assustadora aos recantos mais sombrios da alma.
Enquanto corre contra o tempo, David precisa decifrar pistas escondidas no clássico Paraíso Perdido, e usar tudo o que aprendeu para enfrentar O Inominável e salvar sua filha do Inferno.

go em que o personagem se agarra quando é posto à prova – uma fé, por exemplo. Durante séculos, os livros de terror exploraram esse

lado ‘espiritual’ de forma religiosa, mesmo os clássicos. Há sempre um exorcismo, um cético, padres, igrejas, crenças das mais variadas culturas (celtas, indígenas, judaicas, etc).

 

Durante séculos, aprendemos desde muito novos que o diabo é uma criatura repugnante avermelhada, com chifres e rabo pontudo. Estamos sempre esperando por essa aparência em filmes, desenhos, quadrinhos e qualquer outro veículo midiático que faça referência à sua imagem. No geral, ficamos desapontados – nem tanto, vai!– quando o vemos de outra maneira, mas com certeza nos chocamos quando o vemos tomando formas ingênuas e delicadas, como crianças e desenhos infantis.

Vou confessar que quando comecei a ler O Demonologista, eu esperava um clichê do mais alto grau. A sinopse não ajuda muito e então a mente viaja. David Ullman é um renomado professor de literatura inglesa da universidade de Columbia, especializado na figura literal do diabo, mestre na obra prima de John Milton, O Paraíso Perdido – diz você, se não achou que seria mais um cara cético que teria sua religiosidade/fé colocada à prova etc etc etc? Quase isso.

David Ullman tem meu respeito. Ele é um personagem que cresce durante o desenrolar da história. Ele “toma forma” à medida que as coisas vão acontecendo e você percebe que, por exemplo, o David Ullman do meio/final do livro é completamente diferente do cara que ele era quando iniciamos a leitura e eu achei isso GE-NI-AL. Primeiro por que David não é um personagem atraente. Ele é o próprio narrador da história e se descreve como um cético, descrente, sarcástico, amargo e deprimido – de tudo. Ele é um cara que simplesmente vive por viver e isso fica bem claro quando ele diz estar saindo de um casamento que ele “empurrou com a barriga” apenas por causa da filha de 11 anos – que é a única luz da sua vida – Tess.

David tem um relacionamento complicado com sua esposa desde sempre, mas seus episódios de depressão e isolamento fazem com que eles se afastem cada vez mais até a situação ficar insustentável. Em contrapartida, David tem um relacionamento incrível com a filha, onde os dois compartilham de uma conexão maravilhosa, até a menina começar a apresentar um comportamento parecido com o dele.

Quando uma mulher estranha aparece na sala de David, na universidade, apelidada por ele como “mulher magra” lhe oferecendo um trabalho que implica em fazer uma avaliação profissional sobre um ‘fenômeno’, na Itália, David vê uma oportunidade de preservar sua filha Tess do trauma do divórcio, levando ela com ele para passarem um tempo juntos. E é aí que tudo acontece.

Tô indo rápido demais? Ok. Recapitulando… David é um professor universitário, cético e deprimido, com um casamento em ruínas e vê numa oferta, uma oportunidade de passar um tempo com sua filhinha.

Acontece que quando ele chega na Itália, alguns acontecimentos estranhos, inclusive, lembranças do passado de David, começam a vir à tona de uma maneira muito intensa – David não se tornou esse cara maneiro da noite pro dia, né? – e ele começa a se dar conta de algo está errado.

Como eu disse antes, David é especialista na obra prima de John Milton, O Paraíso Perdido – um poema épico escrito em 12 cantos que descreve desce a criação, rebelião celestial, a queda dos anjos, criação do homem etc etc pela visão do próprio Lucifer – e o livro inteirinho está repleto de versos e referências à obra, inclusive, tanto a mulher magra, quanto outros personagens se comunicam com David através de versos do poema ou utilizam frases carregadas de referências significativas. É interessante que, até David chegar na Itália e ser confrontado, o diabo pra ele era mais um ser mitológico que qualquer outra coisa e não uma criatura que pudesse assumir formas ou manipular tempo e espaço para que seus objetivos fossem alcançados. Aí é que tá.

David chegou na Itália com sua filha, acreditando que aquele trabalho seria de uma perícia simples, um texto ou poema descobertos dentro do seu campo de estudos, talvez. Então ele deixa sua filha no hotel e vai até o endereço fornecido pela mulher magra e se vê numa casa comum, num bairro comum, sendo recebido por um homem que diz ser médico. Esse homem conduz David pela casa até chegarem à um quarto, onde David ganha uma câmera e é deixado sozinho. O que acontece depois muda a vida de David para sempre.

Esse encontro foi arranjando por que David precisa acreditar no sobrenatural e assim, acreditar que o diabo existe. Por conta do passado sombrio de David, de toda a carga sentimental que ele carrega, ele foi escolhido como o ‘cara perfeito’ para trazer isso para o mundo e, de alguma forma, ele tem um prazo – muito curto por sinal – pra cumprir todas as exigências do ‘Inominável’ (no livro, o demônio se apresenta à David como ‘O Inominável’, fazendo com que David, mais tarde, adivinhe seu nome) e quando ele se recusa a fazer isso, sua filha Tess desaparece bem diante de seus olhos, fazendo com que uma jornada incrível e emocionante aconteça.

Duas coisas que eu amei nesse livro: A primeira é ligação maravilhosa que ele tem com a filha Tess. Em nenhum momento ele foi capaz de desistir dela. Mesmo quando o perigo era iminente e os desafios eram insanos, ele nunca pensou duas vezes antes de ir atrás dela. A segunda coisa que eu amei nesse livro é que o autor não enrola. Ele não é aquele cara que fica cinco, seis páginas descrevendo uma cena pra chegar num ponto importante, ele é direto. O que, pra mim, não tirou nada da beleza da história. Não deixou nenhum buraco, nada a desejar. Foi maravilhoso ver que quando a tensão de algo que estava prestes a acontecer começava a deixar meu coração agoniado, ele ia lá e revelava já o que tinha que acontecer e já se iniciava outra tensão, por que esse livro é tenso do início ao fim, sem trégua.

É uma leitura maravilhosa, caprichada, incrível e tem uma mistura muito boa de drama, terror psicológico e aquela pegada clichê do cara cético que tem a fé provada, mas nesse livro o interessante – interessantíssimo – é que David não possui uma fé – nunca teve, na verdade – e nenhum tipo de fé religiosa é citado no livro. No caso, a fé na qual ele se agarra é a esperança de encontrar sua filha de novo. Não é em nenhuma divindade. Me atrevo a dizer que não é sequer no demônio que ele conheceu cara a cara, é apenas na esperança de que ele vai encontrar sua filha sã e salva, custe o que custar.

O Demonologista é um livro que faz pensar. É o tipo de livro que acaba e a sua cabeça fica trabalhando nele por horas – ou dias, como no meu caso. Inclusive, tem um final polêmico – que não cabe a mim trazer a discussão à tona, mas quem quiser e tiver interesse, posso fazer um post falando sobre o que eu achei dele e o que representou pra mim, já que possui muitas nuances – porém, que faz muito sentido, na minha opinião. Muita gente criticou o livro por causa do final, tiraram a credibilidade da história, falaram um monte de besteiras, mas eu acredito que apenas não entenderam e eu os perdoo, por que não sabem o que fazem.

O livro é da Darkside Books, e eu não preciso me esforçar pra dizer que o trabalho gráfico deles é maravilhoso, né? Dou 4,5 pra esse livro APENAS por que o autor matou um personagem que eu considero fundamental para a história do David e fiquei chateada, mas fora isso, não tem nada nesse livro que eu mudaria ou faria diferente. É uma leitura que, sem dúvida, se você for amante de thriller psicológico, vai gostar de ter na sua estante.

Se tiverem a oportunidade de ler, vale muito a pena.

The following two tabs change content below.

Francini Petizer

Últimas Postagens de Francini Petizer (Ver todas as publicações)

Quer receber nossas atualizações por e-mail?

Nós podemos ajudá-lo a escolher sua próxima leitura.

Categoria: Andrew Pyper, Drama, Terror

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *