O Doador de Memórias, de Lois Lowry

| 27 de abril de 2017 | 0 Comentários

Capa do livro O Doador
Em uma sociedade altamente organizada e planejada, Jonas, um jovem rapaz, chega finalmente à idade de exercer uma função. E, mesmo sem ter ideia de qual papel exerceria, para sua surpresa, ele é escolhido para algo que até então era desconhecido por ele, ele se torna um Recebedor de memórias da época em que o mundo não é da maneira que ele conhece, mas é necessário coragem para passar por isso, e Jonas não sabe se possui essa qualidade.

A autora Lois Lory, conhecida por suas incríveis obras infanto-juvenis, traz nessa história uma visão de como seria um mundo ordenado e pacifico. Neste cenário, Jonas cresce com a ansiedade de finalmente se tornar um Quatorze (conceito que se refere a “idade”) e receber seu desígnio na comunidade pela qual é tão orgulhoso quanto todos os outros moradores. É quando o inesperado acontece, e Jonas se torna um Recebedor, um papel desconhecido por ele.

Com tamanha destreza, a autora traz então uma profundidade maior à história: toda a organização dessa sociedade, não fora conseguida sem sacrifícios. É graças ao novo desígnio de Jonas que ele conhece o passado do mundo, e as coisas que deixamos para traz, coisas que poucos suportariam guardar consigo, e por isso a necessidade de um “recebedor”, a única pessoa que pode conhecer a guerra, a fome, a dor, e tudo que acontecera no mundo antes do que eles chamam de “Mesmice”. Mas não é apenas isso, eles também abriram mão de coisas maravilhosas, como a neve, as cores, os sentimentos. É a partir deste momento em que nosso protagonista passa a enxergar além – uma habilidade especial, tenho que dizer (leia e você entenderá).

“Quando não há memórias, a liberdade é apenas uma ilusão.”

Apesar dos momentos totalmente empáticos do livro, a história diminui de qualidade em alguns momentos, quando, por exemplo, não chegamos a conhecer com exatidão como é o processo de “doar” e “receber” memórias. A única coisa que se sabe, é que o Doador (personagem foco do livro) guarda consigo as memórias do passado, justamente para que tais dores e coisas não levem a nova sociedade a ruina, seja por saudade (das cores, por exemplo) ou por medo (de guerras, fomes e doenças, voltarem). A partir do momento em que há essa doação, ele próprio (o doador) perde esse memória; o que e leva a pensar se eu der uma maçã a qualquer, como eu irei me esquecer de que dei isso no exato momento em que o fiz?

Uma outra questão para o leitor é levantada no finalzinho da história, mas não a citarei para não dar spoilers, mas pode se dizer que, apesar de haver muitas comunidades semelhantes à de Jonas, há outros lugares onde as memórias permanecem, onde elas não são ignoradas, e muito menos as coisas boas deixaram de existir.

“Um mundo ideal é um mundo sem dor, guerras, conflitos e desigualdade. Mas também sem sentimentos, cores, desejos ou alegria de verdade.”

Apesar disso, o livro nos dá grandes ensinamentos. De inicio, ele nos passa aquilo do monótono porém legal, mas, logo depois, nos deparamos com a verdadeira face de uma comunidade bem organizada. É o caso dos recém-nascidos gêmeos, onde apenas um dos dois pode continuar na comunidade, para não causar confusão. Sendo feito a escolha (que se resume ao mais pesado), o outro menino passa por algo chamado de “Dispensa”, que é quando alguém pretende abandonar finalmente a comunidade, não se encaixa nela, ou se sente finalmente satisfeito com seu trabalho ali (como é o caso dos idosos). A Dispensa é praticamente a última coisa que um membro da comunidade pensaria em fazer, ou faria.

O livro também reflete um pouco os desejos [não só] da adolescência, chamados de “Atiçamentos”, e como eles são facilmente deixados de lado com uma simples pílula. Pílula essa que Jonas deixa de tomar, mesmo que por acaso, e que, para quem resolver ler o livro perceberá, não é um simples remedinho.

Com um mar de mensagens diretamente para quem busca uma sociedade “perfeita”, O Doador de Memórias nos dá um pouco da Mesmice que seria caso abríssemos mãos das melhores coisas da nossa vida em troca de paz, organização, e justiça. Sei que é uma escolha difícil, afinal, o mundo é uma droga justamente porque nos falta tanta coisa. Mas, e as coisas boas? Elas não superam as ruins? Elas não conseguem vencer as ruins, mesmo que ocasionalmente? Escolher é realmente necessário, quando o equilíbrio pode ser alcançado começando apenas com o desejo de fazer acontecer?

“Quando as pessoas tem liberdade para escolher, escolhem errado.”

Como opinião pessoal, assisti o filme uma vez na televisão e fiquei curioso com o livro. Apesar de haver sim uma necessidade de desenvolver algumas coisas, o filme acaba por complementar o livro em muitos pontos. Ainda quando vi a adaptação para os cinemas, pensei em quanto àquela sociedade – sem memórias, pacifica e perfeitinha – se assemelha com aquilo que muitos anseiam, com relação principalmente a religiões (é uma opinião pessoal, não quer dizer que o livro ou a autora sugerisse isso): chegaremos ao paraíso, adoraremos a (os) Deus (es), viveremos em paz e em comunhão, mas… e o resto? Nossa fé, nossa sensibilidade, nossa dor, nossa história, nossa liberdade? Então, se você tivesse em algum momento escolher, o que seria? Saiba que nem sempre você poderá escolher novamente, mas que tudo parte de suas escolhas, e de como você as aceita.

Isto é Lois Lowry, e isto é ler; questionar, ser, ver, fazer parte.

Abraços, e até a próxima resenha!

Felipe (Élly)

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Sou fã da escrita e da leitura. Desejo ser cineasta, mas enquanto não, curto embarcar nas aventuras literárias de autores como John Green, J.K. Rowling, Agatha Christie... Gosto de livros no geral, mas tenho preferência por drama, fantasia, aventura, romances policiais e suspense. Vejo nas resenhas uma maneira de compartilhar o que leio e, ao mesmo tempo, conversar com outros leitores; oque se torna uma via de mão dupla quando eles lêem o que sugiro, e chegam a comentar. Obs: sou de Humanas.

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Categoria: Distopia, Drama, Ficção, Lois Lowry

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