O filho eterno, de Cristovão Tezza.

| 20 de junho de 2017 | 0 Comentários

Em uma época preconceituosa e de ditadura no Brasil uma criança com síndrome de Down nasce. Isso desola seu pai, que desempregado colocou todas as esperanças naquela criança. Um universo de possibilidades se fecha e ele se vê preso a uma criança “mongoloide” com inúmeros problemas de aprendizado que precisa de acompanhamento pelo resto da vida. Muitas vezes pensa em fugir e abandonar a família, mas para onde iria? A esperança de que o filho venha um dia a ser uma criança normal o acompanha até o final do livro assim como os dilemas que o pai enfrenta.

O pai muitas vezes se compara a um cartum. De certa forma não deixa de ser, embora não exista muitos momentos de humor no livro. Passou a adolescência e parte da vida adulta renegando o sistema, mas como todos foi obrigado a entrar nele. Com uma adolescência de dar inveja a qualquer jovem acabada, o pai de Felipe se torna um escritor fracassado com, o próprio diz, livros que ninguém lê.
No primeiro momento Felipe se mostra uma criança hostil e difícil de ser amada. Mas a medida que vai crescendo se torna uma pessoa encantadora e gentil, de certa forma alheia as obrigações e ao próprio tempo, interessada apenas nas atividades que lhe agradam e com uma visão unica sobre o mundo. Vivendo apenas o presente Felipe diz mais sobre o pai do que sobre ele.
Pouco se fala do resto do mundo, exceto quando o pai relembra os tempos de juventude que parecem ser tão belos e fascinantes comparados ao presente. Seu sonho era um filho normal para depositar suas ambições. Mas quando a irmã de Felipe nasce, o pai se esquece dos sonhos que teve a principio dando cuidados apenas para o filho especial.

Em uma abordagem direta, Cristovão Tezza nos conta como foi o processo de aceitação de Felipe como sendo seu filho. No começo tinha uma vergonha que aos poucos foi se transformando em admiração e finalmente em amor, de certa forma. A transformação na relação entre os dois é nítida. É um processo gradativo de paciência e calma que muitos não aceitariam por completo. Foi uma infância difícil em que o pai se via pensando na morte do garoto. Com 26 anos Felipe ainda é uma criança de mente e alma, mas isso não irrita o pai tanto quanto antes. Ele até consegue ver o filho de outra forma.

Se trata de um universo a parte onde conhecemos um pai que muitas vezes pensa que na verdade quem deveria receber tratamento era ele e não a criança. Um tratamento para aceita-la. Uma adolescência livre, sem destino aparente onde um garoto distante no passado queria se tornar escritor. De pequenas experiencias em forma de memorias mescladas com a dificuldade de criar Felipe com a sutil impressão de que o tempo melhora tudo.

Jessica Allana

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Allana

Ler livros começou como uma diversão e agora simplesmente não consigo parar. Gosto de livros antigos que retratam uma época diferente da minha, mas leio qualquer coisa que colocarem nas minhas mãos. Minha unica fraqueza é gostar de todos os livros que leio.

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Categoria: Literatura Nacional

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