O menino que desenhava monstros, de Keith Donohue

| 22 de fevereiro de 2017 | 0 Comentários

Caramba… Esse livro!!! Eu deveria esperar alguns dias para escrever sobre ele, só que não, preciso escrever logo, ou corro risco iminente de uma ressaca literária. Risos!!!

A princípio duas coisas me chamaram a atenção, o fato de o protagonista Jack Peter ter síndrome de Aspeger (transtorno de comportamento que dificulta a comunicação e socialização), e ter hobbys que vão se modificando durante fases.

A narrativa é em terceira pessoa, a construção do livro se dá de uma maneira esquisita (terei que estudar para entender melhor), composta por prólogo e cinco capítulos, contudo para cada capítulo iniciado por números cardinais escritos por extenso, existem outros capítulos iniciados por algarismos romanos (só que grafados em letras minúsculas: ii, iii, iv … etc.), ainda não sei se tem algum significado. O livro também tem ilustrações (os desenhos de Jack Peter).

O gênero é terror, e o prólogo nos deixa a flor da pele, me lembrou dos filmes de terror, em que ficamos com medo e saímos acendendo as luzes de todos os cômodos da casa, olhamos debaixo da cama, atrás das portas, etc.

O cenário é de arrepiar, embora se trate de um lugar lindo, intitulado pelos personagens, como a casa dos sonhos à beira mar, se passa no Maine EUA, durante o inverno, regados por tempestades de neve e noites gélidas.

O enredo é ótimo, a história em si muito intrigante, cheia de mistérios e coisas sobrenaturais que nos deixam irrequietos, um exemplo é o uso criativo de lendas fantasmagóricas japonesas que nos causam arrepios. Porém, a construção da escrita tem uma especificidade que me deixa aborrecida, alguns vão dizer que sou preguiçosa, mas de fato eu não gosto de escritas não linear (não desse modo), é frustrante quando estamos lendo algo e de repente acontece uma interrupção do nada do absoluto, sem nenhuma pausa, sem nenhum aviso… no meio de uma narração, aliás o único aviso quase imperceptível desses “cortes” são um espacejamento maior entre os parágrafos, isso é como se jogassem um balde de água fria, interrompe a adrenalina e torna o livro confuso e arrastado, várias vezes tive que reler e pior, algumas dessas pausas não fazem a menor falta para o enredo núcleo. Agora pouco duas amigas me pediram spoiler (loucas… amo ♡), e uma delas fez comentários os quais concordo plenamente, entre eles em relação a editora Darkside, nos parece que os livros lançados por ela tem um padrão de serem lindos graficamente, arrastados e com um final surpreendente.

A obra tem um pano de fundo com duas facetas, uma para o impacto causado pela síndrome de Aspeger agravada pela síndrome Agorafobia (medo de estar em espaços abertos, ou seja, ao ar livre/fora de casa) adquirida pelo personagem no decorrer da história. E outra mais abstrata, que diz respeito aos monstros que criamos em nosso interior, no caso de Jack Peter essa questão não é nada abstrata.

A principio tive muita raiva dos pais do personagem que parecem se engalfinhar em relação a síndrome do filho, me deu a entender que eles meio que negligenciavam os cuidados que Jack Peter exigia por sua condição especial, devido a dor que sentiam por não terem um filho “normal”. Tive a impressão de serem omissos as informações sobre o que poderia ajudar o menino a ter uma vida comum, já que a síndrome não impede que ele faça parte da sociedade, inclusive existe uma passagem em que um médico diz que eles não devem “se preocupar” tanto com a síndrome, pois independente disso toda criança tem um ritmo de desenvolvimento, contudo essa discussão não é aprofundada no livro.

Eu penso que todas as vezes que lemos uma história ela nos afeta de alguma maneira, estou mencionando isso, pois acredito que quando se tem que lidar com algo diferente (síndromes), é sempre muito difícil saber qual é a melhor maneira de agir, principalmente quando se trata de um criança, um filho que amamos, e que no caso esperávamos que fosse uma criança com desenvolvimento convencional. Por isso, após uma reflexão minuciosa, acredito que talvez não tenha sido negligencia dos pais de JIP, talvez ainda não tivessem aprendido a lidar com a situação.

O final do livro é impactante, aliás, o livro perde um pouco do teor arrastado após as 150 páginas, quando as coisas tomam uma proporção horripilante, e passam a acontecer cenas em que a gente se pega torcendo para que o personagem vá para o lado oposto, se esconda, reze… enfim… Não posso deixar de mencionar um elemento bem legal no livro, em suas últimas páginas, somos convidados a desenhar nossos próprios monstros, receios, angústias e tudo mais. Achei sensacional, mas não desenhei, aliás, vou seguir o conselho da miga que mencionei, que ao me pedir spoiler, disse: Depois dessa eu não me atrevo a desenhar nada, pois vai que…. kkkkk.
Gente o livro vale muito a pena, o final nos deixa de queixo caído, duvido que alguém imagine esse final é mega, hiper, máster surpreendente. Adorei, nem mesmo a (des)contrução da narrativa (a meu ver), tirou o brilho do livro. Nota 10. Super recomendo.

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Roberta Galdino

Paulista, pedagoga e louca por livros!!!

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Categoria: Terror

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