Suicidas, de Raphael Montes

| 14 de agosto de 2016 | 0 Comentários

“As diversas faces do suicídioSuicidas

Um porão, nove jovens e uma Magnum 608. O que poderia ter levado universitários da elite carioca – aparentemente sem problemas – a participar de uma roleta-russa?
Um ano depois do trágico evento, que terminou de forma violenta e bizarramente misteriosa, uma nova pista, até então mantida em segredo pela polícia, ilumina o nebuloso caso. Sob o comando da delegada Diana Guimarães, as mães desses jovens são reunidas para tentar entender o que realmente aconteceu, e os motivos que levaram seus filhos a cometerem suicídio.
Por meio da leitura das anotações feitas por um dos suicidas durante o fatídico episódio, as mães são submersas no turbilhão de momentos que culminaram na morte de seus filhos. A reunião se dá em clima de tensão absoluta, verdades são ditas sem a falsa piedade das máscaras sociais e, sorrateiramente, algo maior começa a se revelar.”

 

O livro Suicidas, de Raphael Montes, nos trás a história de uma roleta-russa entre nove jovens, cujos corpos foram encontrados em um estado inexplicável. A delegada Diana reúne as mães dos suicidas, um ano depois da tragédia, para tentar encontrar alguma explicação para o que aconteceu, através de um caderno encontrado no porão, escrito por Alessandro que também tinha participado da roleta-russa naquele dia e esse caderno conta detalhe por detalhe de tudo o que aconteceu.

“DIANA – Nove de outubro de 2009. Dezesseis horas e trinta e dois minutos. Reunião para esclarecimentos sobre o caso Cyrille’s House. Sou a delegada Diana Custódio Guimarães. Esta conversa está sendo gravada. Alguma objeção?”

Montes tem um incrível talento de conseguir surpreender. Quando peguei o livro para ler e vi o estilo da escrita, pensei: “Well, será que dessa vez ele vai errar?”. Ele picotou a história em três para que parecesse um quebra-cabeças (ao menos, foi o que eu achei). Já li outros livros cuja escrita fosse parecida com essa, mas nenhum deu muito certo, sabe? Ele monta o livro de tal modo que simplesmente não conseguimos descobrir o que acontecerá logo em seguida. Em todo momento, me senti aflita como aquelas mães que estavam com a delegada. E isso é muito da hora!

“VÂNIA – A minha filha era maravilhosa… (CHORO) Mas ela se sentiu tão fraca com… (CHORO) Eu teria ajudado… Não iria brigar com ela… Nunca!

DIANA – O Lucas também não pareceu temer nada. Ao que consta, ele já havia tentado cometer suicídio em cinco ocasiões antes. A primeira em 2005, dia 06 de agosto. Foi aí que começou a frequentar o psiquiatra, doutor Gusmão Alvarenga, certo?”

Dentre os personagens do livro, destaco aqui os participantes da roleta-russa. Eles não poderiam ser mais diferentes. São o tipo de pessoa que você nunca imaginaria que acabariam juntos. E o pior é que, por eles serem tão diferentes, é fácil você se identificar um pouquinho com cada um deles (isso se você for totalmente sincero consigo mesmo).

“- Eu tinha medo de palhaços […] Do tipo palhaços assassinos, entende? […]

– John Gacy, o serial killer […] Quando foi preso, encontraram mais de trinta corpos no porão da casa dele. Na maioria, corpos de crianças. Estupradas, sodomizadas… […]

– E o que isso tem a ver? – perguntou a João. […]

– Ele era o palhaço da cidade – respondeu, alargando o sorriso. […]

Ele contava a história do assassino em série como quem narra a biografia de um ídolo, destacando cada detalhe particularmente sórdido. Ridículo.”

Raphael Montes sabe muito bem como explorar o lado sombrio do ser humano. O lado psicopata do Zak, o lado interesseiro da Maria João, o lado egocêntrico do Alessandro e até a inocência de uma criança com síndrome de down. Em todos os livros dele, ele segue um mesmo ritmo, mas mesmo assim consegue surpreender. Ele consegue enveredar as três perspectivas da história [os dois cadernos do Alessandro (um contando os detalhes da roleta-russa e outro contando sobre um pouco antes da ideia da roleta-russa vir a tona) e a conversa das mães] de tal modo que não deixa buracos, ou sei deixou, são praticamente imperceptíveis, além de ele encontrar alguma utilidade importante para cada um dos personagens, o que contribui para isso.

“Dessa vez, Noel não hesitou. […] Jogou-se no chão de joelhos, curvando-se para mais perto da Ritinha. Deitou o rosto sobre a barriga dela, o nariz a poucos centímetros dos seios fartos. Voltou a choramingar feito uma criança. […] Fez que ia cobri-la, segurando as partes da blusa rasgada, mas percebi que se aproveitou para acaricia-la. Um leve toque. As mãos suadas encontraram os mamilos e ali ficaram, petrificadas.”

Raphael Montes é um grande escritor em ascensão no nosso país, com livros traduzidos em várias línguas e vem representando lindamente a literatura brasileira, feito que me faz admirar ainda mais o trabalho dele. Suicidas é um livro com um ritmo intenso, que sinto falta em muitos best-sellers estadunidenses. Sinceramente, torço para que ele faça o sucesso que merece e que os tantos outros escritores espalhados nesse Brasil tenham seu lugar ao Sol.

Recomendo esse livro para ler a qualquer momento. Quer ler algo? Leia Suicidas. Está triste e quer se distrair? Leia Suicidas. Está de ressaca literária? Leia Suicidas. Aliás, leiam qualquer livro de Montes, porque o cara realmente não deixa nada a desejar.

Nota: 5/5

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Outras obras do autor:

O Vilarejo: http://resenhasdelivros.com/o-vilarejo-raphael-montes/

Dias Perfeitos: http://resenhasdelivros.com/dias-perfeitos-raphael-montes/

Contos diversos:

  • “A professora”, em Assassinos S/A (Ed. Multifoco, 2009)
  • “O amor por Esther”, em Beco do Crime (Ed. Multifoco, 2009)
  • “Banquete”, em Demônios VII – Gula (Ed. Estronho, 2011)
  • “As irmãs Valia, Velma e Vonda”, em Demônios VII – Inveja (Ed. Estronho, 2011)
  • “A doce Jekaterina”, em Demônios VII – Luxúria (Ed. Estronho, 2011)
  • “Café” e “Depoimento nº 220.919.90″, em Clube da Leitura vol. 2 (Ed. Flanêur, 2012)
  • “Statement nº 060.719-67″, em Ellery Queen Mystery Magazine (November, 2013)
  • “Balas de tamarindo”, em Para Copacabana com amor (Ed. Oito e meio, 2013

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Gabrielle

Gabi Gomes - amante de livros, da boa música e do bom café. Tímida, introvertida, introspectiva e derivados. Não, não sou antissocial, embora eu diga (só pra pararem de perguntar).

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Categoria: Adolescente, Drama, Suspense

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